Debate durante a 3ª Semana Nacional de Engenharia, promovida pelo Instituto de Engenharia de São Paulo, reuniu especialistas para discutir os desafios da infraestrutura, da gestão e do financiamento do transporte público nas cidades brasileiras.
Alexandre Asquini
mobilidade urbana brasileira precisa de mais do que investimentos em infraestrutura para superar seus principais desafios. Planejamento urbano integrado, governança metropolitana, segurança jurídica, eficiência operacional e diversificação de fontes de financiamento são fatores essenciais para melhorar o transporte público e a qualidade dos deslocamentos nas cidades. Essa foi a principal convergência entre os participantes da sessão “Mobilidade: o que precisa melhorar na engenharia das cidades brasileiras”, realizada durante a 3ª Semana Nacional de Engenharia, promovida pelo Instituto de Engenharia de São Paulo.
Iniciada em 6 de outubro, a 3ª Semana Nacional de Engenharia prossegue até a próxima terça-feira,13 de outubro. O debate na sessão sobre mobilidade urbana foi coordenado por Maria da Penha Pereira Nobre, diretora do Departamento de Desenvolvimento Urbano e Regional do Instituto de Engenharia, e contou com a participação de Carlos Eduardo Lima Jorge, presidente executivo da Associação para o Progresso de Empresas de Obras de Infraestrutura Social (APEOP); Francisco Christovam, diretor-presidente da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU); Francisco Pierrini, CEO da concessionária responsável pela Linha 6-Laranja do sistema metroviário paulistano; e Wagner Colombini Martins, presidente da Logit.
Embora tenham abordado a mobilidade sob diferentes perspectivas, os especialistas convergiram na avaliação de que os problemas do transporte urbano não podem ser resolvidos por iniciativas isoladas. A construção de corredores de ônibus, linhas de metrô e terminais precisa estar articulada ao planejamento territorial, à integração entre os diferentes modos de transporte e à definição de modelos de gestão e financiamento capazes de garantir a continuidade dos serviços.
Planejamento urbano como ponto de partida
A necessidade de antecipar problemas, em vez de apenas reagir a eles, foi um dos pontos destacados por Carlos Eduardo Lima Jorge. Para o presidente executivo da APEOP, o planejamento é o elemento central para melhorar a mobilidade e evitar que decisões inadequadas encareçam as intervenções públicas.
Ao defender a valorização da engenharia nacional, Carlos Eduardo ressaltou que o país dispõe de capacidade técnica para desenvolver soluções eficientes, desde corredores de ônibus e ciclovias até pontes, viadutos e terminais integrados.
O desafio está em articular essas soluções a uma estratégia de desenvolvimento urbano. Isso pressupõe aproximar moradias, empregos, escolas, comércio e serviços, reduzindo a necessidade de deslocamentos longos e melhorando o aproveitamento da infraestrutura existente.
O engenheiro também defendeu a prioridade ao transporte coletivo, a ampliação das condições para a mobilidade a pé e por bicicleta e o emprego de tecnologias para aprimorar a gestão do trânsito.
“A resposta é planejamento” foi a ideia central de sua intervenção ao abordar o que precisa melhorar na engenharia das cidades brasileiras. A mensagem é que projetos bem concebidos e integrados podem reduzir custos, melhorar os serviços e produzir resultados duradouros.
Considerar todas as dimensões da cidade
Francisco Christovam ampliou a discussão ao defender uma abordagem que vá além das especialidades tradicionais da engenharia. Para o diretor-presidente da NTU, a mobilidade exige a integração das dimensões técnica, jurídica, econômica, social e ambiental.
Sua apresentação chamou a atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a viagem do passageiro não começa quando ele embarca no ônibus ou no metrô. Ela tem início na saída de casa e só termina quando chega ao destino, o que torna essenciais as condições das calçadas, dos acessos e das conexões entre os serviços.
Christovam também destacou a necessidade de segurança jurídica nos contratos, cumprimento das obrigações pelo poder público e criação de condições financeiras para sustentar a operação do transporte coletivo.
Um dos pontos centrais de sua exposição foi a distinção entre a tarifa pública, paga pelo passageiro, e a tarifa técnica, correspondente ao custo de prestação do serviço. Essa separação permite discutir formas de remuneração que não dependam exclusivamente da capacidade de pagamento dos usuários.
O dirigente também propôs a criação de um Vale-Transporte Social para ampliar as oportunidades de deslocamento da população de baixa renda.
Sua síntese conceitual foi expressa na defesa de uma “engenharia humana”: uma engenharia que não tenha como finalidade apenas construir estruturas, mas que coloque as necessidades das pessoas no centro das decisões.
Alta capacidade e integração dos modais
A experiência da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo serviu de referência para Francisco Pierrini discutir a importância do transporte de massa e sua integração com os demais modos.
O executivo ressaltou que um sistema de mobilidade eficiente não pode ser pensado apenas a partir de um modal. Metrô, ônibus, bicicletas e transporte individual precisam funcionar de maneira coordenada, com planejamento capaz de facilitar o deslocamento dos passageiros entre a origem e o destino.
Ao apresentar a capacidade de transporte do metrô, Pierrini destacou a diferença entre os volumes de passageiros que podem ser movimentados por um trem e por veículos rodoviários. A comparação reforçou o papel dos sistemas de alta capacidade na redução da pressão sobre o sistema viário.
O palestrante também chamou a atenção para os problemas provocados por projetos insuficientemente desenvolvidos antes da licitação. Quando os estudos não contemplam adequadamente a demanda e as condições de execução, aumentam os riscos de alterações, atrasos e dificuldades operacionais.
Para ele, o planejamento precisa ser acompanhado de segurança jurídica e coordenação entre os governos. Nesse sentido, defendeu a importância de uma autoridade metropolitana que articule as decisões de municípios e estados.
Sua mensagem foi clara: “Todos os modais têm que conviver de uma forma planejada, de uma forma organizada. ”
Pierrini também ressaltou que os investimentos privados precisam oferecer retorno às empresas, mas devem produzir, sobretudo, benefícios para a sociedade e para os usuários do transporte público.
Governança, transparência e financiamento
Wagner Colombini Martins, presidente da Logit, abordou a mobilidade a partir dos resultados de um estudo nacional desenvolvido com apoio do BNDES, que mapeou projetos em 21 regiões metropolitanas brasileiras.
O levantamento identificou oportunidades de investimento, mas também evidenciou obstáculos institucionais e financeiros que dificultam a transformação dos projetos em obras e serviços. A avaliação apresentada foi de que a crise do transporte público não decorre apenas da falta de recursos ou de limitações técnicas: envolve principalmente problemas de governança.
Colombini organizou sua análise em quatro eixos: autoridade para coordenar os sistemas, eficiência operacional, confiabilidade dos dados e diversificação das receitas.
Na governança, defendeu estruturas metropolitanas capazes de integrar os serviços municipais e intermunicipais, além de agências reguladoras independentes para fiscalizar a prestação dos serviços.
Na eficiência, destacou a integração tarifária, a prioridade aos ônibus, a racionalização das linhas e a melhoria da velocidade operacional. Também ressaltou a necessidade de informações confiáveis sobre demanda, arrecadação e custos, com transparência e possibilidade de auditoria pelo poder público.
O financiamento recebeu atenção especial. Além das tarifas e dos subsídios públicos, o palestrante apresentou alternativas como receitas imobiliárias associadas aos investimentos em transporte, exploração comercial de terminais, publicidade e contribuições de beneficiários indiretos.
Ao tratar da eletrificação das frotas, alertou que a mudança tecnológica exige investimentos em garagens, instalações de recarga e infraestrutura de energia. A transição, portanto, precisa ser acompanhada de planejamento e de modelos financeiros adequados.
A conclusão de Colombini foi que os investimentos previstos para o setor somente poderão se concretizar se houver governança capaz de assegurar dados confiáveis, transparência e receitas sustentáveis.
Engenharia a serviço das pessoas
Apesar das diferentes abordagens, as quatro apresentações convergiram para uma conclusão: melhorar a mobilidade urbana exige integrar infraestrutura, planejamento territorial, gestão pública e sustentabilidade financeira.
A expansão da oferta de transporte, por si só, não garante resultados se os serviços permanecerem fragmentados ou se faltarem instituições e recursos para assegurar sua operação ao longo do tempo.
O desafio da engenharia é transformar projetos e investimentos em benefícios concretos para a população. Isso significa oferecer deslocamentos mais eficientes, seguros e acessíveis, reduzir desigualdades no acesso à cidade e tornar o transporte coletivo uma alternativa confiável.
O debate promovido no contexto da 3ª Semana Nacional de Engenharia reforçou, assim, que o avanço da mobilidade urbana depende não apenas de construir mais, mas de planejar melhor, integrar os sistemas e criar condições permanentes para que a infraestrutura funcione em benefício das pessoas.