Em entrevista ao Diário do Transporte, consultor Claudio de Senna Frederico usa metáfora para mostrar como a desigualdade estrutura o debate sobre mobilidade urbana.
ALEXANDRE PELEGI
O consultor e vice-presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Claudio de Senna Frederico, concedeu entrevista ao jornalista Alexandre Pelegi, do Diário do Transporte, em que propôs uma reflexão instigante: como seria a mobilidade se os automóveis fossem tratados da mesma forma que os ônibus?
A partir dessa metáfora, ele mostra como a sociedade brasileira, marcada por desigualdade, acaba marginalizando o transporte público em favor de soluções individuais, ainda que coletivamente mais prejudiciais.

Diário do Transporte: No seu artigo você parte de uma “fantasia”. Pode explicar essa ideia inicial?
Claudio de Senna Frederico: Eu imaginei um cenário em que a Constituição determinasse que a mobilidade urbana fosse garantida por meio do uso individual de automóveis. Mas esses carros não seriam de uso livre como hoje: seriam comprados em massa pelas prefeituras, padronizados e administrados por concessionárias, como ocorre com os ônibus.
Diário do Transporte: Como funcionaria esse modelo hipotético?
Claudio de Senna Frederico: Esses carros ficariam em garagens centralizadas, muitas vezes longe da casa do usuário, obrigando-o a caminhar para acessá-los. À noite, o acesso seria restrito, e as pessoas teriam de recorrer a táxis ou serviços mais caros. Além disso, os veículos teriam limitações técnicas e econômicas. Não seria raro que muitos circulassem sem ar-condicionado, por exemplo.
Diário do Transporte: E quanto à cobrança pelo uso desses automóveis?
Claudio de Senna Frederico: Seria feita por meio de bilhetagem eletrônica, como no transporte coletivo. Haveria subsídios públicos para garantir acesso aos mais pobres, mas propostas como “tarifa zero” seriam sempre vistas como inviáveis, exatamente como acontece hoje com os ônibus.
Diário do Transporte: Como ficaria a população de maior renda nesse cenário?
Claudio de Senna Frederico: Ela migraria para serviços mais confortáveis e caros. Teríamos, digamos, “carros de luxo coletivos”, fretados, com rotas fixas ou dinâmicas, acessíveis apenas a quem pudesse pagar. Seria a reprodução da desigualdade que já vemos: os de cima criam sistemas paralelos e deixam o público para os de baixo.
Diário do Transporte: E os impactos urbanos dessa fantasia?
Claudio de Senna Frederico: Teríamos ainda mais congestionamentos. A infraestrutura seria redesenhada para favorecer ônibus e veículos de elite, com corredores exclusivos e redução de áreas de estacionamento. Shoppings deixariam de ter grandes estacionamentos e funcionariam como terminais, enquanto os carros comuns seriam relegados a pontos periféricos.
Diário do Transporte: Qual a mensagem que essa metáfora busca transmitir?
Claudio de Senna Frederico: O ponto central é mostrar que o transporte coletivo não sofre por falhas próprias, mas sim porque a sociedade é desigual e tende a marginalizá-lo. O mercado valoriza o individual, o exclusivo, aquilo que cria distinção social. O coletivo, por natureza mais democrático, acaba visto como algo de segunda categoria. Essa é a lógica que precisamos questionar.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
