Armando Guerra defende que a mobilidade urbana eficiente depende de planejamento, infraestrutura e transporte público de qualidade, não apenas da eletrificação
Armando Guerra Junior
Muito se fala em cidades inteligentes, sendo a sustentabilidade e a mobilidade urbana fatores fundamentais, dentre outros, para que um espaço urbano seja considerado como tal. Existem atualmente conceitos bastante disseminados e aceitos como indiscutíveis sobre como elevar uma cidade a esse patamar. Mas precisam ser analisados com cuidado, de forma mais aprofundada, para que se evitem medidas açodadas ou inspiradas por exemplos vindos de realidades diferentes. Não que esses conceitos estejam equivocados, mas porque, para serem implantados e surtirem efeito no dia a dia urbano, necessitam ser pensados de forma mais ampla, considerando-se características locais, pré-requisitos, viabilidades.
Uma mobilidade sustentável requer a eletrificação dos veículos, criando um transporte público de qualidade, que ofereça viagens rápidas, silenciosas e confortáveis. Parece que a maioria concorda com isso. Cabe, porém, uma reflexão: a eletrificação é o único caminho? O mais rápido de ser implantado? O mais barato? É uma necessidade urgente, em cidades onde o transporte coletivo sobre rodas é feito por motores de tecnologia Euro 6, ou movidos a biocombustíveis? Não se trata de combater o conceito da eletromobilidade em si, mas de se ter o cuidado de não o considerar a única solução, quando a transição energética pode apresentar vias alternativas de adoção mais fácil e rápida. O passageiro não opta pelo ônibus apenas por ser elétrico; se o coletivo não consegue andar em meio a um verdadeiro mar de veículos estagnados, vai ser trocado por outro modo. O tempo de viagem foi considerado o fator mais determinante da não utilização do ônibus, tanto no período anterior à pandemia, como no posterior, em pesquisa realizada pela Coppe/UFRJ em 2023, dado comprovado em pesquisa CNT/NTU no ano seguinte.
Um sistema de transporte público precisa oferecer viagens rápidas, confortáveis e seguras. Não há como negar essa assertiva. Há, porém, que se contar com infraestrutura viária que permita a fluidez no trânsito, para que o ônibus consiga manter a velocidade adequada. Prioridade nas vias, com faixas seletivas, pistas em boas condições de conservação, sinalização inteligente e segurança pública são alguns dos atributos necessários para uma experiência satisfatória para o cliente.
Recuperar o passageiro do transporte público é importante para a sustentabilidade e para a mobilidade como um todo. Ônibus são 8 vezes mais eficientes do que automóveis energeticamente e economizam o espaço viário — são necessários 60 carros para levar a quantidade de pessoas que um único ônibus transporta, uma vez que a média de ocupação por automóvel é de 1,2 passageiro. Assim, o transporte por ônibus contribui fortemente para a redução de emissões e a diminuição dos congestionamentos, mas vem perdendo demanda. Para que se reconquiste aqueles que escolheram uma viagem menos demorada, mesmo que mais arriscada (como no caso dos mototáxis, por exemplo), é imprescindível que se tenha um olhar abrangente e atento aos interesses do usuário.
Cidades mais eficientes, com boa mobilidade urbana, são importantes para a qualidade de vida e a própria economia. No entanto, as soluções devem ser pensadas de forma abrangente, pois, para que um sistema de transporte público funcione bem, é preciso que sejam considerados, em seu planejamento, fatores ambientais, urbanísticos, de segurança pública e de custo operacional, entre outros. Não há sistema de transporte público sem passageiros. O estudo CNT/NTU realizado em 2024 mostra que a frase não é um exagero: 30% dos entrevistados já deixaram de usar o ônibus.
Há que se requalificar o serviço, e isso não pode ser feito apenas pelo operador, há enorme responsabilidade do poder público, a quem cabe o planejamento, a implantação de infraestrutura adequada, a definição das características dos serviços contratados e da forma de financiamento desses serviços. Não se trata apenas de deslocamento de pessoas de um ponto a outro, mas de democratização dos espaços públicos, acesso a serviços, qualidade de vida (desde o ar que se respira até a espera no ponto com segurança e conforto) e o próprio funcionamento das cidades.
Armando Guerra Junior é presidente executivo da Semove.